Desapego...
- madalena almeida

- 11 de mar.
- 2 min de leitura
Atualizado: 2 de abr.
Durante muitos anos comprei livros de forma quase compulsiva. Sentia-me faminta de conhecimento e cada livro parecia trazer uma promessa de descoberta e também a possibilidade de sonhar.
Quando era muito jovem cheguei a comprar livros infantis a pensar num futuro em que teria filhos. Imaginava-me primeiro a contar-lhes histórias, página após página, e mais tarde a vê-los pegar nesses mesmos livros, já capazes de os ler sozinhos. Livros que, na minha imaginação, eles iriam precisar e certamente adorar.
Com o passar do tempo comecei também a comprar livros por outro motivo: queria estar preparada para todas as eventualidades. Pensava que, se um dia o mundo virasse de pernas para o ar, teria sempre informação em papel a que recorrer.
Aos poucos fui tomando consciência de algo importante: as coisas não nos pertencem verdadeiramente. E percebi também que o desapego é um exercício que precisamos de aprender e praticar.
Foi então que pensei nos meus livros.
Para começar esse processo, os livros pareceram-me o melhor lugar para iniciar. Até então eu era incapaz de emprestar um livro, quanto mais de me separar dele. Cada um era quase uma pequena extensão de mim.
Registei-me no BookCrossing e fui deixando livros em cafés, paragens de autocarro.
Desde então tenho vindo a reduzir drasticamente o número de livros em casa. Estou sempre pronta a deixar partir alguns deles.
E curiosamente não há tristeza nesses momentos. Pelo contrário, sinto um enorme prazer ao libertá-los.
Há algo profundamente bonito em perceber que estamos a dar aos livros — e às pessoas que os encontram — a oportunidade de continuar a circular, de continuar a espalhar ideias, histórias e mensagens.
Hoje restam apenas aqueles que são realmente especiais para mim. Aqueles a que gosto de voltar de vez em quando, como quem visita um velho amigo.





Comentários